A perda de um grande amigo

 A mais ou menos onze anos atrás, numa noite fria de outono em Porto Alegre, eu  saia da casa onde  morava com minha mãe, para ir a um encontro combinado com uma pessoa que me traria um cãozinho da raça Sharpei. 

Era um  filhote de 4 meses vindo de Santa Cruz do Sul que eu havia sido presenteado por uma amiga daquela cidade.

Pois então me dirigi para o endereço no bairro Petrópolis e fiquei lá na calçada, aguardando chegar o carro no qual o cão viria junto. Logo parou por ali um veículo com dois rapazes. Observando o interior do carro,  não vi qualquer filhote junto aos caras. Que estranho - pensei, não haveriam de tê-lo trazido.

Foi quando os rapazes desembarcaram do carro e o motorista foi logo abrindo o porta-malas, onde vinha o  cão.

Blaster, assim o chamei quando o rapaz abriu a escotilha do porta-malas. 

Incrível, ali estava um filhote muito fofo de Sharpey Bear Coats completamente nauseado pela viagem. 

Seres boçais - pensei, pois trouxeram o pobre bicho dentro do porta-malas fechado e sacolejando ao longo de 160 km.

Ali estava ele, sentadinho numa toalha velha e todo babado, vomitado e tonto. 

Caramba, eu via ali naquele momento do que é capaz um ser humano ignorante e  insensível. Aquele tratamento era brutal e não esbravejei com os caras porque o próprio animal me sedou com seu encanto. 

Pois tratei de enfia-lo dentro da bolsa de tecido a qual eu havia trazido junto, para irmos para casa, de motocicleta.

Este foi o início de uma amizade que considerei a mais integra e fiel que já tive com qualquer ser na minha vida. 

Ali estava o Blaster, meu grande amigo que preencheria minha vida dali para frente. Era mes de junho  do ano de 2000.

Hoje,  dezembro de 2011 faço paralelos da minha vida relacionados à fases que passei em convivência com o cão. Agora depois de sua partida deste mundo, uma cartase mental se estabeleceu, brotada da ausência sufocante e monótona deixada pelo Blaster.

Moro nesta casa na Cidade Baixa em Porto Alegre,a quase oito anos e aqui ele sempre habitou em convivência e presteza de seus serviços. Parece bem difícil me acostumar daqui para a frente a circular pelas peças e quartos amplos  sem ter a sensação de que o Blaster esta na sua cama dormindo maravilhosamente, ou passando em algum lugar da casa. Todas alternativas incluem o Blaster e algum quadro mental dele, sempre esta me espreitando nas minhas tarefas diárias e rotineiras desde sua morte.

Sou cuidadoso agora em não buscar uma piedade do animal ou do que possa abalar mais minha emoção de perdê-lo. Isso porque lembrar e pensar no cão trazem as  lágrimas e a dor da perda de alguém muito querido. 

Perda irreparável de um amor incondicional. Uma dor muito forte que chega a provocar um mal estar e peso no coração.

Então tenho evitado pensar muito e sim me conformar da forma positiva de buscar em tudo que houve desta convivência, algo que possa alimentar o conformismo da morte no seu aspecto mais terrível: a ausência de quem partiu.

Naquela época , eu morava com minha mãe a mais ou menos um ano numa casa de fundos com pátio, perto do morro da Embratel, pelos lados da Av. Aparício Borges. Era no bairro Partenon, também em Porto Alegre.

O Blaster na chegada a sua casa nova não foi bem recebido por minha mãe, que meio enciumada, disse que não iria cuidar do animal e resmungou como de costume. 

Já mais alguns anos ali e ela manifestou realmente uma cena forte de ciúmes, dizendo que eu tratava melhor ao Blaster do que à ela mesma. Eu realmente tinha um super carinho pelo Blaster, mas minha mãe estava neurotizando a situação, não reconhecendo o quanto era útil ter um cão ali, cuidando a possíveis invasores ao pátio da casa. 

Minha mãe já tinha um poodle chamada Susy, a cadelinha  que durou 17 anos e morreu ali naquela casa mesmo. 

Pobre Susy, definhou sozinha em casa numa época em que eu e minha mãe brigavamos direto e o  bicho não tinha atenção dela.

Muito ocorreu naquela casa, tudo assistido pelo Blaster. Para aliviar a nossa tensão, eu e o cão saíamos  ao entardecer pelo Partenon e arredores, quando ainda era tudo muito precário em termos de via urbana. 

Vimos a 3ª Perimetral ser construída passo a passo naquela região. Passeavamos diariamente a noite, em algumas partes do bairro onde era bem perigoso. A gente curtia passear. O Blaster com seu porte e ar de cão sério, projetava respeito e pela beleza, atraia os olhares femininos. Muito bom, comecei a entender todos os aspectos sociais de se ter um cão.

Uma noite nós dois sozinhos numa rua deserta do Morro da Vila Conceição, fomos atacados por um pastor alemão capa preta enlouquecido de brabo. O animal fugiu do pátio de uma casa e veio direto atacar o  Blaster. Lembro que na hora  juntei pedras para ajudar o Blaster na tarefa onde  encurtava e soltava sua guia, no tempo que tentava acertar e afugentar o pastor. O bicho era gigante em relação ao Blaster, mas esse não se mixou, queria estar sem coleira para poder atacar direto o pastor alemão. Incrível!! Fomos logísticos  senão haveriamos de ter perdido a luta para o pastor. Eu soltava e puxava o Blaster enquanto tentava  chutar a fera. Livrava o Blaster e tentava afugentar a besta. Foi cansativo de suar, porém acertei muitos chutes no bicho e finalmente uma pedrada que o fez partir apavorado com nossa bravura.

Grande Blaster, nunca se mixou prá ninguém. Ele se achava indestrutível.Eu via no animal, um instinto violento caso fosse necessário e muito caráter e consciência de sua força. 

O Blaster era meu irmão. Ele daria seu sangue e a vida por mim, se assim fosse necessário. E uma vez, muito sangue perdeu realmente quando teve o focinho perfurado por mordida de uma ratazana enorme. Esta invasora  que ele  matpu na àrea de casa em uma noite de forte temporal.

O Blaster patrocinava  uma segurança em todos os sentidos. Latia sempre vigilante no portão de grades ao desconfiar de sombras, perceber cheiros ou ouvir sons sinistros.

Minha mãe continuava reclamava dos latidos  do cão a noite. Ela tinha razão, mas tinha que reconhecer que o Blaster trouxera mais segurança a nossa moradia, naquela região onde eram frequentes arrombamentos e assaltos. Então já  havia alguma tolerância mais do que antes. O meu cão valia oque comia dentro de uma abordagem humilde simplista, mas  compreensível à minha mãe.

Então conheci uma namorada que tinha casa perto de Torres  e trouxe ao Blaster a oportunidade de viajar e conhecer o mar. O meu sogro pagava pelas idéias loucas da sogra e ela sugerira que se levasse o Blaster junto com a família para a praia,naquele verão de 2001. Sensacional, fomos na perua do sogro, com o Blaster  por sob as malas, na parte bem atrás do carro. Ele viajava olhando pelo vidro e algumas vezes vomitou em cima das nossas coisas. Mas tudo bem, chegamos e curtimos muito aquela praia de São Pedro, no litoral norte do Rio Grande do Sul. 

Lembro do Blaster correndo solto pela  longa faixa que se estendia entre comoros de areia e o mar. Ele adorou a idéia de praia  e até perseguiu alguns cusquinhos pela beira do mar, enfurecido mas nunca sanguinário e cruel.

O Blaser era conscencioso. Ele provinha de uma raça que tinha no seu DNA habilidades para a caça e vigilância como atributos. Seus anscestrais vigiaram templos budistas na China e isso,- sempre achei que conferia aos Sharpeis um caráter mistico e filosófico. O Blaster articulava seu pensamento, de forma básica sim, mas superior a da maioria dos cães de raça. Além disto, eu reconhecia no cão alguém que teria vindo a este mundo para participar da minha vida e do meu carma de forma atuante e icógnita. 

A sua partida desta vida aos 77 anos ( contando que cada ano do cão equivale a 7 dos humanos segundo fontes da zoologia) e na época do Natal de 2011 no dia de solstício, confirmavam minhas suspeitas de que o Blaster foi enviado por Deus para me ajudar naquela etapa longa de onze anos de minha vida, quando voltei a morar com minha mãe.

Ele partiu dia 21 de dezembro me deixando mergulhado na tristeza e na saudade de sua presença. Eu pouco me importava com o Natal até então, isso não fazia muito sentido, pois nós já haviamos passado vários natais juntos, apenas nós dois. Este ano eu não teria mais sua companhia e o meu natal seria triste sem sua presença.

Teste forte para quem se propôs a trilhar uma senda de autoconhecimento pela vida a fora. O mundo e a vida me pareciam cruéis demais agora, me subtraindo aquela criatura a qual estavam firmadas as minhas bases emocionais que davam a segurança de até colocar os humanos em segunda ou terceira opção de prioridade.

Hoje chegará a meia noite, os fogos de artifício irão colorir o céu noturno na beira do Guaíba e muitas explosões comemorativas  se farão. As mesmas explosões que assustavam o Blaster e o faziam me procurar pela casa para ficar perto. Hoje ele não estará comigo e isso já esta doendo muito. Parece um pesadelo sem fim, ter que suportar a ausência deste amigo que partiu. Tento me consolar pensando no seu bem estar agora, livre das doenças que estavam acometendo-o, livre também do mal estar de não poder sequer tomar àgua sem vomitar. Era muito sofrimento e ele agora está livre do cancer e em paz, com a certeza de Deus.

Mas eu egoísticamente ainda queria tê-lo aqui para comemorarmos a noite de Natal alegremente como sempre fora.

Não era mais assim, o Blaster foi embora para sempre e me deixou com o coração apunhalado pela surpresa do destino. Mesmo já anunciado estado de morte e de declínio visível, não havia a idéia da dor na sua dimensão exata de quando ele não mais estivesse aqui. O imaginário era a previsão suportável e condicional de estar perdendo um cachorro. Triste conclusão tirada após sua morte. O Blaster era muito mais que um cachorro para mim.

Então, meu Natal era de luto. Já havia comprado uma camisa preta de microfibra prevendo isso. Preta de luto e assim permaneceria até o fim daquele ano. Luto absoluto.

A perda era irreparável  porque o Blaster fazia parte da configuração mais básica daquela casa, junto comigo. 

Ele habitou aqui já desde a minha mudança, vindo logo após os móveis e também em carater definitivo de mudança da casa de minha mãe. Até então eu achava que seria seguro para ela, mantê-lo em sua companhia. Porém houve um fato que me fez mudar de idéia. Foi quando o Blaster derrubou minha mãe num passeio. Ele puxava muito na guia e levou minha mãe a um tombo junto ao chão. Então logo após este episódio trouxe o cão para morar comigo definitivo aqui para esta casa onde ele viveu maior parte de sua vida. 

Minha mãe surpreendentemente  manifestou tristeza com sua saída  pois o Blaster estava preenchendo o mundo dela quando retornei a morar sozimho na Cidade Baixa, dando-lhe companhia e trabalhoe atividades para cuidado. Então mamãe começou a entrar em depressão lentamente e mais ou menos um mes após o Blaster ter vindo para cá e tê-la deixado,  veio a falecer em casa de morte natural. 

Dormiu e não acordou mais nessa vida. Minha vida triste. Eu estaria dali para frente sem ter mais minha mãe. Era a mesma dor da perda em uma fase anterior ao agora e também infinitamente dolorosa  como agora.


Aos poucos vou me esvaziando de idéias  e procurando um sentido para minha vida, Olhando de uma perspectiva que questiona o porquê dar tanto valor a uma figura na forma de animal. Onde este, simbolicamente representa alguém que como um pet poderia habitar minha vida. Porém, para ser perfeitamente encaixável  um ser humano nas condições que permito para os cães. Muitas divagações.Muitos apontamentos.Muita culpa.

Quero que me falte vontade de continuar escrevendo sobre o Blaster, porque isso de alguma forma será um sinal que eu estou superando e me enquandrando naquilo que vem como um divisor de àguas. 

Marcará a minha cura, ou progressos no sentido dela, porque eu adoeci momentaneamente com este fato da perda

 Eu ainda teria muito a dizer e relatar de todos os anos de vida com meu cão e espero fazer isso quando a saudade me apertar o peito, pois é nessa circunstância que eu tenho vindo escrever e completar este  post sobre a perda do Blaster. A tristeza tem sido diária, e espero que algo mude em minha vida para bom porque a ordem natural das coisas tem se mostrado funesta. Procuro um arco íris desesperadamente para marcar uma  mudança boa.Vida que seguirá.

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